• Document: As batalhas do Castelo
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1 DOMINGOS PELLEGRINI As batalhas do Castelo 6ª edição ilustrações de Rogério Borges Coleção Veredas 2 Coordenação editorial: Maristela Petrili de Almeida Leite Preparação de texto: Christina A.B. Verderesi Capa e ilustrações: Rogério Borges Composição: Linoart Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Pellegrini, Domingos, 1949- P441b As batalhas do castelo / Domingos Pellegrini; capa e ilustrações de Rogério Borges. — São Paulo : Moderna, 1987. (Coleção veredas) 1. Literatura infanto-juvenil I. Borges, Rogério. 1951- II. Título. III. Série. 87-1560 CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura infanto-juvenil 028.5 2. Literatura juvenil 028.5 Todos os direitos reservados EDITORA MODERNA LTDA. Rua Afonso Brás, 431 Tel.: 531-5099 CEP 04511 - São Paulo - SP - Brasil 1989 Impresso no Brasil 3 SUMÁRIO 4 1. A herança real Mais ou menos lá pelo meio da Idade Média, mesmo o reino mais medíocre tinha seus castelos, suas cortes com príncipes e princesas, duques e condes, viscondes e arquiduques e assim por diante, todos com seus criados e pagens, amas e babás, cachorros e cavalos, pombos e falcões. As cortes eram protegidas por cavaleiros, tropas de arqueiros e lanceiros, todos alimentados, por pelotões de cozinheiros e padeiros, nos castelos cercados de ovelhas e pastores, as ovelhas engordando para morrer e os pastores tão magros que nem pareciam viver. A vida não era muito alegre e fácil lá pelo meio da Idade Média, mas mesmo a menor das cortes tinha seus artistas, que viviam de divertir os poderosos: músicos, poetas, pintores, dançarinos, atores, sempre borboleteando em volta dos banquetes, elogiando a feiúra das marquesas, desmanchando com graças a carranca dos barões, alisando com pincéis as rugas dos reis, tocando sempre as músicas que mandavam tocar, dançando até os ossos estalarem de velhice. E mesmo a corte com menos artistas tinha também seu bobo, que não era tido como artista e, no entanto, não devia ser nada bobo. Pois mesmo na mais escura das cortes os cortesãos se julgavam muito iluminados, sensíveis e inteligentes mas, entre um poema e uma dança, entre um recital e uma tragédia — ou mesmo depois duma comédia — o que mais 5 gostavam era de rir de algumas bobices. O bobo da corte tinha de inventar todo dia novas piadas, trejeitos de outros jeitos e caretas com outras caras — senão a corte se zangava, o rei erguia um dedo e pronto: era uma vez um bobo, virava ajudante de cozinheiro ou limpador de urinóis (ainda nem existiam privadas, mas prisões existiam já há muito tempo e, se o rei quisesse, podia até mandar D bobo passar a pão e água o resto de seus dias). Na escuridão das prisões, nos porões dos castelos, ratos do tamanho de gato engordavam disputando com os presos cada pedaço de pão; e cada pão vinha de trigais plantados por homens miúdos de fome e de tristeza; e nos moinhos o trigo era moído por outros homens, cansados de viver só para moer trigo; e depois, nas cozinhas, á. farinha era amassada por cozinheiras que cozinhavam para tantos e mal tinham tempo de comer; e assim os castelos se erguiam sobre os ratos e o ódio das prisões, e os reinos se sustentavam com suor e lágrimas. Até por isso, vendo todo dia tanta tristeza e miséria nos campos e nas praças dos castelos, à noite, os cortesãos queriam mais luxo e mais alegria, mais vinho e mais comida, mais arte dos artistas e mais bobice do bobo da corte. Por isso, era difícil um bobo chegar à velhice sempre se renovando para agradar à corte. Mas aconteceu que num reino, quase esquecido de tão distante e até um tanto reles de tão pobre, um bobo foi tão bobamente esperto que o Rei, antes de morrer, resolveu deixar para ele um castelo. Queria que o bobo tivesse sua corte e até seu próprio bobo, e vivesse do trabalho de seu próprio povo e, como um rei, tivesse sobre todos direito de vida ou morte. Morria o Rei no dormitório real — um salão tão grande que, entrando ali pela primeira vez, o Bobo precisou procurar a cama perdida entre tantas rodas de conversas e sussurros, barões e duques cocando barbas e cavanhaques com temores e preocupações, duquesas e marquesas rodando saias em choro e consolações à rainha e às . princesas. Lá num canto morria o Rei, enredado nas rezas dos p

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