• Document: Mia Couto. Vozes anoitecidas
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Mia Couto Vozes anoitecidas VOZES ANOITECIDAS (2.ª edição) Autor: Mia Couto Editorial Caminho, SA, Lisboa- 1987 Tiragem: 3000 exemplares Data de impressão: Outubro de 1992 Depósito legal n. 33 984/90 ISRN 972-21-nn71- Índice Prefácio edição portuguesa Prefácio lª e 2.ª edições moçambicanas Texto de abertura A fogueira O último aviso do corvo falador O dia em que explodiu Mabata-bata Os pássaros de Deus De como se vazou a vida de Ascolino do Perpétuo Socorro Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar? Sade, o Lata de Agua As baleias de Quissico De como o velho Jossias foi salvo das águas A história dos aparecidos A menina de futuro torcido Patanhoca, o cobreiro apaixonado Prefácio edição portuguesa Quase de chofre e muito sorrateiramente, Mia Couto apareceu-nos a confirmar que todo e qualquer acto criativo sério na área das artes (plásticas ou literárias) não consiste em ser autor de coisa jamais feita, ser o pioneiro ou dela ser o descobridor. E dizemo-lo porque esta colectânea de contos com que Mia Couto se estreia na ficção tem, quanto a nós, precisamente o mérito de reestabelecer o elo, reavivar uma continuidade, partindo do Godido, de João Dias, passando inevitavelmente pelo Nós Matámos o Cão Tinhoso de Luís Bernardo Honwana. Ou equívoco nosso ou este Vozes Anoitecidas imbui-se de um referencial algo importante para nós moçambicanos, literariamente: Indo afoitamente remexer as tradicionais raízes do Mito, o narrador concebe uma tessitura humano-social adequada a determinados lugares e respectivos quotidianos. Mia Couto faz-se (transfigura-se) vários seus personagens pela atenta escuta de pessoas e incidentes próximos de si, porque o homem-escritor quer-se testemunha activa e consciente, sujeito também do que acontece e como acontece, já que desde a infância pôde saber-se objecto. Em jeito de aforismo, Mia Couto remete-nos para enredos e tramas cuja lógica se mede não poucas vezes pelo absurdo, por um irrealismo, conflitantes situações; pelo drama, o pesadelo, a angústia e a tragédia. No entanto - e importa salientar - fiel ao clima. O mesmo clima. Um dado clima. Isso que distingue o escritor do escrevente e diferencia prosa de prosaico. Obtendo sugestivos efeitos significantes, Mia Couto maneja a linguagem das suas figuras legitimando a transgressão lexical de uma fala estrangeira com o direito que lhe permite o seu papel de parente vivo de Vozes Anoitecidas. E, tal como João Dias e Luís Bernardo Honwana já a isso, havia e necessariamente, haviam recorrido, também Mia Couto consegue na escrita reflectir vivências e particularismos sem descer ao exotismo gratuito, ao folclorismo cabotino. Igualmente sem se estatelar no linguajar chocarreiro de baixo nível, sem cair na chacota ou no indigenismo de burlesca ironia do senso de humor pré-colonial. Com esta auspiciosa estreia na prosa (!) Mia Couto entrega-se ao renovo, esse aspecto sempre pouco, menor, mau ou descarado quando se não apoia no talento. E como? Inserindo-nos no ritmo do poeta que já era e no modular sóbrio, conciso - tributo tarimba de jornalista ou seu estilo? -, do narrador recreando-se no prazer do contador de estrias. Dando-se até a exigência de não se autorizar - nem a ele nem aos seus leitores - a fácil sonolência, o bocejo, o monótono ou o ambíguo escorregadio, o que vale, afinal, como aquele objectivo da coisa literária que muitos aprendizes despudoradamente tentam mas que s os eleitos vão conseguindo. Portanto, ao notável projecto literariamente moçambicano de João Dias (década de 50), a feliz proposta de Luís Bernardo Honwana (década de 60) vemos afuir com a mesma surpresa e também quase socapa, dialecticamente, este Vozes Anoitecidas (década de 80) de Mia Couto. Uma trilogia que nos apetece exaltar como base e fase da nossa criação na arte de escritor ou - porque não? - capitulo cultural importante de uma fisionomia africana com personalidade identificavelmente moçambicana, umas vezes nas simbologias, outras vezes em certos desfechos, reacções e codificações de um fatalismo místico, ritualista, aparentemente imagi-nado mas extraído da própria vida. E que Mia Couto, em forma de hábeis slides, com rara beleza fixa e nos oferece para nos angustiar ou fazer participar a partir da sua visão deste nosso universo sentido do lado de dentro. Visão precária? Ah! Desculpem, mas não enveredemos numa praxis ou na catarse do fenómeno literário, essa tarefa em que transpiram e se esgotam os críticos de ofício. E o que nós temos estado, muito tosca e fastidiosamente, a tentar dizer que gostámos maningue deste Vozes Anoitecidas. Sinceramente, maningue, mesmo! E, já agora, não sabendo se vale ou não vale a pena, se devo ou não devo, atrevo-me ao desplante de garantir que Mia Couto com estes seus magníficos slides no género conto mostra que neles se mantém - e com que apurada sensibilidade - o bom poeta que no género poesia já provara ser. E ainda bem, porque disso se congratula menos o autor e mais, bem m

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